| Crônica de Denílson Cardoso de Araújo - Publicado Jornal O Diário de Teresópolis em 02/março/2010 |
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| Ter, 02 de Março de 2010 22:13 |
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Transbordamentos
A cidade inundada, na quinta-feira, com seus lixos expostos, o Paquequer transbordando a revolta com os maus tratos que recebe, parece um espelho do sentimento que aperta corações teresopolitanos, de origem ou escolha. A posição em que se viu o Vereador Cláudio Mello, na reunião inaugural da sessão legislativa deste ano, me fez recordar certa vez em que fui à Câmara, séculos atrás, para defender interesses da categoria bancária. Pasmo, presenciei o edil Bira do PT quase “ser atirado pela janela do plenário” por uma presidência transbordando autoritarismo. Estava há pouco, Tenho respeito e carinho por esta serra. Guardo boas recordações de infância, quando vínhamos passar temporadas em casa de meu tio, o Pastor Antonio Moreira Portes, da Igreja Batista Central (aliás, cadê a placa em sua homenagem, que ficava na praça em frente à Igreja?). O Parque Nacional, o lago do Comary, a Cascata dos Amores, o Parquinho do Filadélfia, as calçadas largas, a estrada onde, entre enjôos, via os muros de hortênsias: transbordamento de inesquecíveis lembranças. Quando vim morar aqui, percebi o ambiente político sempre conturbado. Parecia faltar solidez e tradição. Dificultosa, a contrapartida da ousadia e da inovação. Características da cidade parecem não ajudar. Para muitos é mera rota de trânsito no trajeto serrano, com paradas breves na Feirinha e no Parque. Ou ponto de refúgio daqueles que, uma vez dentro de suas casas de veraneio, só põem o pé na rua para comprar o pão. Baixa circulação de riquezas, pouca indústria. Faltam empregos. Nos debates sobre o Estatuto da Cidade, estranhei a amplitude de vocações descrita no projeto. Turística, industrial, agroprodutora, pólo comercial, de veraneio e universitária, dentre outras coisas. Na ocasião, ousei comentar se não era caso de se definir a vocação principal que conduzisse os outros aspectos da índole natural da cidade, a servir àquela linha mestra. Como, me parece, ocorre com as cidades das serras gaúchas, por exemplo. Em torno do “turismo do frio”, se ergueu todo um aparato que movimenta a indústria de cinema, as vinícolas, as fábricas de chocolate e, mais recentemente, a superprodução natalina, com desfiles e tudo. Desta forma, as faculdades da região formam mão-de-obra qualificada exatamente para esses mercados. É competência que transborda. Lidando com jovens em situação de risco moral e social, muito me preocupa perceber, aqui, a falta de opções de emprego. A marginalidade crescente observa essa mão-de-obra disponível e a contrata, a preço de banana, ou a soldo do tênis da moda. Não mais. São carências que transbordam. Sabemos que o período é difícil. Há uma mudança política O problema é quando os que vêm de fora não percebem a importância do que já existe, não respeitam ritmos típicos da cidade, sendo certo que cada cidade é um ser vivo com pulmões próprios e peculiar musculatura. Não acompanho a vida política do Município o bastante para tecer considerações sobre o sucesso dos enxertos efetuados na máquina pública. Que dêem certo. Mas é preciso respeitar as características da cidade. E, voltando ao começo, também no caso de partidos, é preciso respeitar, nestes, suas características. Não há Teresópolis sem Dedo de Deus, ainda que se vá brigar eternamente com Guapimirim pelo cartão postal. É difícil, também, imaginar o PT nesta cidade, sem o Vereador Cláudio Mello, praticamente o único alento da legenda, quando Bira retirou-se. Digo isso muito confortavelmente. Não sou do PT há mais de 15 anos, desde quando percebi José Dirceu e cia seqüestrando aquela estrela. Daí, ter estado em alguns debates “contra” Cláudio Mello algumas vezes. Terçamos argumentos, com o respeito que se devotam adversários leais. E com essa isenção digo: é estranho ver um político atuante boicotado em seu próprio partido, humilhado pela mesa da Câmara com a exclusão das comissões e, aparentemente, abandonado à própria sorte pelos que se elegeram sob a mesma legenda. Ainda mais quando o caso é de alteração na Lei Orgânica que, levada à analogia extrema, parece indicar ao Presidente da República poder se eleger não somente em três de outubro de determinado ano, mas a qualquer tempo antes daquela data. Inclusive, quando as pesquisas ou a máquina melhor favoreçam as intenções do que pretende reeleição. Parece um transbordamento não democrático. No fim das contas, parece mais um lance de desacerto e dissenso em uma cidade que precisa tanto de harmonia. Certo que é necessário separar o joio do trigo. Mas o risco, para quem é muito apressado ou obra sem cautela, é jogar fora a criança com a água da bacia. E de tanto virar bacias, a cidade se inunda. É assim que esperanças (e crianças!) se afogam.
Denílson Cardoso de Araújo |
| Última atualização ( Dom, 11 de Abril de 2010 22:38 ) |


