Home Informativo 2009 Crônica de Denílson Cardoso de Araújo - Publicado Jornal O Diário de Teresópolis em 02/março/2010
Visualizações de Conteúdo : 145335

Online agora:

Nós temos 58 visitantes online
<<  Julho 2010  >>
 Se  Te  Qu  Qu  Se  Sá  Do 
     1  2  3  4
  5  6  7  8  91011
12131415161718
19202122232425
262728293031 

Menu Principal

Gabinete: Travessa Ranulfo Féo, Nº 36
Edificio Túlio Spector sala 215
Várzea - Cep 25953-650
Tel: (21) 2742-8202.


 
 
Crônica de Denílson Cardoso de Araújo - Publicado Jornal O Diário de Teresópolis em 02/março/2010 PDF Imprimir E-mail
Avaliação do Usuário: / 4
PiorMelhor 
Ter, 02 de Março de 2010 22:13
Transbordamentos

A cidade inundada, na quinta-feira, com seus lixos expostos, o Paquequer transbordando a revolta com os maus tratos que recebe, parece um espelho do sentimento que aperta corações teresopolitanos, de origem ou escolha. A posição em que se viu o Vereador Cláudio Mello, na reunião inaugural da sessão legislativa deste ano, me fez recordar certa vez em que fui à Câmara, séculos atrás, para defender interesses da categoria bancária. Pasmo, presenciei o edil Bira do PT quase “ser atirado pela janela do plenário” por uma presidência  transbordando autoritarismo.

            Estava há pouco, em Teresópolis. Petropolitano, aqui moro há 16 anos. Mas passei por Amazonas, São Gonçalo, Niterói e Nova Friburgo. Profissão ou luta política, me levaram a freqüentar parlamentos, seja para negociar, seja para pressionar e até aprender. Nunca tinha visto aquilo.

        Tenho respeito e carinho por esta serra. Guardo boas recordações de infância, quando vínhamos passar temporadas em casa de meu tio, o Pastor Antonio Moreira Portes, da Igreja Batista Central (aliás, cadê a placa em sua homenagem, que ficava na praça em frente à Igreja?). O Parque Nacional, o lago do Comary, a Cascata dos Amores, o Parquinho do Filadélfia, as calçadas largas, a estrada onde, entre enjôos, via os muros de hortênsias: transbordamento de inesquecíveis  lembranças.

            Quando vim morar aqui, percebi o ambiente político sempre conturbado. Parecia faltar solidez e tradição. Dificultosa, a contrapartida da ousadia e da inovação. Características da cidade parecem não ajudar. Para muitos é mera rota de trânsito no trajeto serrano, com paradas breves na Feirinha e no Parque. Ou ponto de refúgio daqueles que, uma vez dentro de suas casas de veraneio, só põem o pé na rua para comprar o pão. Baixa circulação de riquezas, pouca indústria. Faltam empregos.

            Nos debates sobre o Estatuto da Cidade, estranhei a amplitude de vocações descrita no projeto. Turística, industrial, agroprodutora, pólo comercial, de veraneio e universitária, dentre outras coisas. Na ocasião, ousei comentar se não era caso de se definir a vocação principal que conduzisse os outros aspectos da índole natural da cidade, a servir àquela linha mestra. Como, me parece, ocorre com as cidades das serras gaúchas, por exemplo. Em torno do “turismo do frio”, se ergueu todo um aparato que movimenta a indústria de cinema, as vinícolas, as fábricas de chocolate e, mais recentemente, a superprodução natalina, com desfiles e tudo. Desta forma, as faculdades da região formam mão-de-obra qualificada exatamente para esses mercados. É competência que transborda.

            Lidando com jovens em situação de risco moral e social, muito me preocupa perceber, aqui, a falta de opções de emprego. A marginalidade crescente observa essa mão-de-obra disponível e a contrata, a preço de banana, ou a soldo do tênis da moda. Não mais. São carências que transbordam.           

           Sabemos que o período é difícil. Há uma mudança política em curso. A esmagadora preferência popular revelada quando as urnas foram abertas em 2008, surpreendeu a todos. Configurou-se uma esperança, mas também uma responsabilidade. Esta parece pesar, como revelam as trocas no secretariado, a falta de aproveitamento de projetos que andavam bem, e – como no caso do acordo frustrado com a Vara da Infância – afrontas desnecessárias, que não somam ao projeto que a cidade demanda. A vinda de pessoas de outras cidades para integrarem o governo causou desconforto, o que é natural. Mas por si só, não é ruim. Ninguém desprezaria a vinda de Jaime Lerner, por exemplo, para pôr ordem na estrutura urbana, como também seria bem vindo um Darcy Ribeiro para organizar projetos educativos ou, ainda, um César Maia (o primeiro deles, do primeiro governo Brizola), para tornar mais produtivos os recursos públicos.

            O problema é quando os que vêm de fora não percebem a importância do que já existe, não respeitam ritmos típicos da cidade, sendo certo que cada cidade é um ser vivo com pulmões próprios e peculiar musculatura. Não acompanho a vida política do Município o bastante para tecer considerações sobre o sucesso dos enxertos efetuados na máquina pública. Que dêem certo.

            Mas é preciso respeitar as características da cidade. E, voltando ao começo, também no caso de partidos, é preciso respeitar, nestes, suas características. Não há Teresópolis sem Dedo de Deus, ainda que se vá brigar eternamente com Guapimirim pelo cartão postal. É difícil, também, imaginar o PT nesta cidade, sem o Vereador Cláudio Mello, praticamente o único alento da legenda, quando Bira retirou-se. Digo isso muito confortavelmente. Não sou do PT há mais de 15 anos, desde quando percebi José Dirceu e cia seqüestrando aquela estrela. Daí, ter estado em alguns debates “contra” Cláudio Mello algumas vezes. Terçamos argumentos, com o respeito que se devotam adversários leais.

            E com essa isenção digo: é estranho ver um político atuante boicotado em seu próprio partido, humilhado pela mesa da Câmara com a exclusão das comissões e,  aparentemente, abandonado à própria sorte pelos que se elegeram sob a mesma legenda. Ainda mais quando o caso é de alteração na Lei Orgânica que, levada à analogia extrema, parece indicar ao Presidente da República poder se eleger não somente em três de outubro de determinado ano, mas a qualquer tempo antes daquela data. Inclusive, quando as pesquisas ou a máquina melhor favoreçam as intenções do que pretende reeleição. Parece um transbordamento não democrático.   

           No fim das contas, parece mais um lance de desacerto e dissenso em uma cidade que precisa tanto de harmonia. Certo que é necessário separar o joio do trigo. Mas o risco, para quem é muito apressado ou obra sem cautela, é jogar fora a criança com a água da bacia. E de tanto virar bacias, a cidade se inunda.  É assim que esperanças (e crianças!) se afogam.

 

Denílson Cardoso de Araújo

Última atualização ( Dom, 11 de Abril de 2010 22:38 )
 
Banner

Pesquisa automática

Vereador - Cláudio Mello,